A perspectiva de crescimento da economia angolana de 2,9 por cento em 2022 é considerada positiva, e resulta de um conjunto de acções macroeconómicas que o Executivo tem desenvolvido, com realce para a implementação do câmbio flutuante associado ao preço do petróleo, disse, recentemente, em Luanda, o partner Financial Service (gestor dos serviços financeiros) da Deloitte, José Santos.

19/12/2022   08H22

As acções que têm sido desenvolvidas contribuem para a credibilidade do mercado nacional e criam mais investimentos

Ao apresentar o tema “Financiamento do FMI e a Inflação”, durante um seminário na Universidade Agostinho Neto, realizado, recentemente, em Luanda, o gestor mostrou-se satisfeito pelo facto de Angola conseguir sair de uma situação de grande recessão, agravada pelo impacto da pandemia da Covid-19, bem como de um conjunto de factores internos e externos.

O especialista em finanças recordou que o país teve um boom económico no período entre 2010 e 2014, tendo registado um novo declínio do preço do petróleo, matéria-prima que representa cerca de 80 por cento das receitas públicas, e 96 por cento das exportações, o que resultou  num grande desequilíbrio nas contas externas e no mercado cambial.

“Foi neste contexto que  Angola solicitou ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI), ao abrigo do Programa de Financiamento Ampliado, no valor de 3.7 mil milhões de dólares. Há quem questione se Angola não poderia recorrer a outras fontes, mas esta opção deve-se ao facto de se tratar de uma entidade credível que, para além da parte de financiamento, lhe prestou apoio técnico para  levar adiante as reformas necessárias”, apontou.

O apoio técnico, de acordo com José Santos, resumiu-se num pacote de políticas bastante abrangentes para acelerar a diversificação económica, o que passa pela consolidação orçamental, das contas públicas, maior flexibilidade cambial, sendo esta última uma das principais imposições do FMI.

“A opção por uma taxa de câmbio flutuante foi fundamental pelo seu impacto nas reservas internacionais. O cuidado com uma política monetária de apoio para reduzir a inflação, em suma, a definição de um conjunto de medidas restritivas para controlar a inflação, assim como o fortalecimento do sistema bancário”, sublinhou o especialista.

 
Banca forte

O economista destacou o fortalecimento da banca nacional entre os impactos da relação de Angola com o FMI, uma das premissas daquela instituição velar pela robustez dos bancos sempre que assinar um acordo, isto é, avançar para um programa de qualidade de activos.

“A criação de um bom ambiente de negócios, isto é, o ‘doing business’, que é conseguir, perante os parceiros internacionais, dizer que Angola é competitiva, com pessoas capazes, infra-estruturas adequadas e um quadro jurídico legal que protege os investidores”, disse na sexta-feira, em Luanda.


Economista defende maior atenção aos ciclos económicos

O economista e coordenador do Centro  de Investigação Contabilístico da Universidade Agostinho Neto (UAN), Fernandes Wanda, defendeu, no evento, a necessidade de maior atenção aos ciclos económicos por que Angola tem passado, já que, em sua opinião, o actual momento deve-se à “política do Kwanza forte”, algo que se deve ao aumento do preço e níveis de produção de petróleo.

“O mercado é dinâmico, serve para diversas operações, envolvendo pagamentos em moeda estrangeira, além dos processos de investimento que envolvem a entrada de divisas. A utilização da política cambial tem impacto directo na vida económica de um país, porque as taxas de câmbio acabam por reflectir os preços dos produtos que o país importa, assim como na exportação”, avançou.

Segundo argumentou, este contexto macroeconómico que Angola vive hoje já aconteceu no passado.

“De 2004 a 2008, Angola teve um contexto bastante favorável devido o aumento na produção do petróleo, em função da descoberta de novos poços de petróleo, saindo de 800 barris por dia para mais de um 1,0 milhão, numa altura em que coincidiu com o aumento do preço do barril nos mercados internacionais, permitindo que Angola fortalecesse as reservas líquidas internacionais”.

Para ele, é necessário olhar para os factos históricos para que não se repitam os mesmos erros, uma vez que se nota um cenário que já aconteceu.

“Podemos concluir que alguns resultados não se devem muito ao programa do FMI, mas sim pelo aumento dos preços e produção do petróleo”, considerou.

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