11/11/2022 16H28

Intervenção proferida a 10 de Novembro de 2022 por Sua Excelência Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República, Adão Francisco Correia de Almeida , por ocasião das celebrações do Centenário do Dr. António Agostinho Neto na UNESCO .

• Excelência Dalva Ringote Allen, Ministra de Estado para a Área Social da República de Angola;
• Excelência Embaixadora Ana Maria de Oliveira, Representante Permanente da República de Angola Junto da UNESCO;
• Excelência Embaixador João Bernardo de Miranda, Embaixador Plenipotenciário da República de Angola em França;
• Excelência Embaixador Santiago Mourão, Presidente da Conferência Geral da UNESCO;
• Excelência Embaixador Ernesto Ottone, Diretor-Geral-Adjunto para a Cultura da UNESCO;
• Distintos Membros do Governo da República de Angola;
• Dignos Representantes da Fundação Dr. António Agostinho Neto.

Ilustres convidados;
Minhas senhoras e meus senhores.

Permitam-me que expresse o quão honrado estou por fazer parte desta cerimónia e poder cumprir a devida homenagem a uma figura angolana cuja dimensão transcende o nosso País – transcende o continente africano.

Neste ano de 2022 em que celebramos o centenário do Dr. António Agostinho Neto, o povo angolano reconheceu e homenageou o político, o estadista, o intelectual e o homem de artes e cultura, de qualidades ímpares. Contudo, a presente jornada de homenagem num palco tão distinto quanto a UNESCO não poderia ser mais honrosa para todos os angolanos. Em nome de Sua Excelência Senhor Presidente da República de Angola, João Manuel Gonçalves Lourenço, que tenho a honra de representar neste acto, manifesto os mais profundos agradecimentos.

Entre os angolanos há um profundo reconhecimento da figura do Dr. António Agostinho Neto. Amámo-lo enquanto fundador da Nação, enquanto primeiro Presidente de Angola, enquanto inspirador da luta de libertação nacional. Mas também pela relevância do trabalho literário que produziu.

A sua produção literária é curta, porém expressiva. Publicou uma obra poética de três livros. Primeiro, “Sagrada Esperança”, que veio a manifestar-se como a sua obra mais icónica. E por que razão? Este livro representa da melhor forma os traços da personalidade do autor. As reflexões em forma de poemas permitem denotar toda a dedicação, que se confunde muitas vezes com paixão, à causa da luta contra a dominação e exploração colonial de que estava sujeito o povo africano.

Já a título póstumo, foi publicada “Renúncia Impossível” com textos em que o autor ressaltou o seu perfil anticolonialista, reforçando-o com uma dimensão transnacional ou até mesmo transcontinental. Em “Renúncia Impossível”, Neto apoiou-se no sofrimento do homem negro africano para manifestar solidariedade a todos os povos subjugados em África, na Ásia, na América.
Nesta obra, ficou claramente demarcado o seu sentimento de revolta bem como a sua manifesta insubmissão, traços característicos e marcantes de todo o seu percurso, quer político, quer literário.

Como corolário da sua obra poética, foi publicada, também a título póstumo, “Amanhecer”, reforçando a sua visão independentista e projectando um futuro de liberdade, de autodeterminação para os povos então sob jugo colonial.

Muito tem a obra de Agostinho Neto além da poesia. Desde a publicação de textos dispersos em revistas europeias ainda escreveu “Náusea”, um conto que ajuda a compreender o percurso sofrido para a edificação da sociedade angolana e toda a luta empreendida em prol da unidade nacional.
Ilustres convidados,
Minhas senhoras e meus senhores.

Os traços característicos da obra literária de Agostinho Neto tornam difícil a tarefa de separar do escritor, o político e, deste, o humanista. Neto evidenciou-se em todas estas qualidades e usou, sempre, uma faceta para potenciar a outra. Em qualquer uma delas, deixou definida não apenas a sua revolta contra a opressão como também evidenciou a sua excelência, enquanto político, enquanto escritor.

A dimensão da obra de Agostinho Neto, nas suas múltiplas valências, constitui hoje objecto de estudo em várias universidades espalhadas pelo Mundo. São diversas as homenagens feitas em vários Países, ressaltando a sua amplitude política e emancipadora, em manifestações que ganharam maior relevo agora que celebramos o centenário do seu nascimento.
Ilustres convidados.

A actividade a que hoje presenciamos não poderia ocorrer em momento mais oportuno. Amanhã, dia 11 de Novembro, Angola celebra o 47º aniversário de Independência, proclamada em 1975 pelo Dr. António Agostinho Neto que se consagrou como o seu primeiro Presidente, cujo legado, cujos ideias continuam a inspirar geracções após geracções de angolanos.

Celebrar o centenário de Agostinho Neto não é senão um acto de justiça, uma distinção necessária e uma homenagem honrosa para quem se notabilizou no mundo da literatura – para quem se entregou de corpo e alma à luta pela dignificação do homem oprimido.

Hoje, minhas senhoras e meus senhores, não estamos aqui senão a fazer justiça, a conferir à memória de um gigante a devida dimensão internacional.

Embora o destino tenha interrompido cedo a sua caminhada de luta, a sua genialidade literária, António Agostinho Neto será sempre conhecido e reconhecido como um lutador incansável pelos mais altos anseios do seu povo, como um patriota firme e destemido na defesa da causa dos angolanos, como fundador da nação angolana, como um emancipador, como um defensor dos oprimidos em todo o Mundo.

Agostinho Neto era, acima de tudo, um pregador da esperança, incentivando os seus contemporâneos a lutar por uma África independente, com a mesma tenacidade com que, nos dias de hoje, lutamos por um mundo melhor, sem as injustiças, sem os males que nos apoquentam a todos.

Com a sua caneta, Agostinho Neto chorou e clamou por justiça. Mais do que isso: entregou-se a uma luta que é, no fundo, de toda a humanidade. Esta mesma humanidade que em várias partes do Mundo ainda faz ecoar o seu pungente grito por liberdade.

Muito Obrigado

Paris, 10 de Novembro de 2022.

Revista Destemidos.