05/10/2022 09H32

A desistência de professores, devido a falta de condições de trabalho e a remuneração abaixo da expectativa está a preocupar o Sindicato dos Professores (SINPROF), disse, ontem, em Luanda, o seu secretário-geral.

Adma Jinguma lamentou, por ocasião do Dia Mundial do Professor, que hoje se assinala,  o facto de, no país, a docência ainda ser subvalorizada.

“O professorado é uma profissão é pouco valorizado, quer em termos de condições de trabalho, quer em termos de remuneração, por isso muitos professores são obrigados a abandonar a carreira e apostarem noutros sectores ou trabalharem por conta própria”, criticou.

O SINPROF, acrescentou, está preocupado com alguns relatos de existirem mais professores com pretensão de abandonarem a carreira. “A maioria tem trabalhado em condições adversas”, destacou o sindicalista. 

O Dia Mundial do Professor, adiantou, está a ser celebrado este ano, sob o lema “A transformação da educação começa com o professor”, como forma de chamar atenção dos Governos de todos os países do mundo, quanto a importância de colocarem a educação no topo das suas agendas.

“A meta do sindicato é procurar valorizar, cada vez mais, o professor, enquanto elemento indispensável na formação de qualquer sociedade e dos indicadores mais importantes para a qualidade do próprio sistema de ensino.

Formação contínua

O secretário-geral do SINPROF criticou, ainda, a falta de uma formação contínua dos professores, em todos os níveis de ensino. “É outro problema que temos, porque qualquer profissional quando ingressa para o exercício de uma profissão, entra com uma formação inicial, entretanto, durante o exercício da profissão, tem de ser capacitado, pelo facto de o conhecimento não ser estático”, disse.

Para Admar Jinguma, a falta de formação é uma grande preocupação do sector, que deveria ser superada com a criação de um programa de capacitação contínua dos docentes mais activos. “O que é dado são apenas seminários metodológicos, realizados entre os trimestres. Porém, a formação contínua, quando devidamente elaborada e estruturada, em módulos, ajudaria a descobrir as fraquezas na dinâmica do sistema de ensino e na própria evolução da educação”, defendeu.

O sindicalista lamentou o facto de existirem algumas más práticas, particularmente na contratação dos novos professores, cujos critérios de admissão não respeitam os princípios determinados pela Lei.

“Em alguns casos não são tidos em conta, os docentes devidamente capacitados para ensinar e este é outro mal com o qual a classe se debate. Muitos professores não estão preparados para transmitir, correctamente, as matérias aos alunos. Por isso existem reclamações regulares da parte de alunos e encarregados de educação quanto ao conhecimento transmitido”, adiantou.   

Salário insuficiente

Professora há 18 anos, Lando João lamenta o facto de, até hoje, os docentes ainda terem como preocupação de base, o salário. “É uma tristeza o rendimento mensal que um professor aufere. É uma remuneração que não compensa, quando comparado ao empenho e a dedicação dada para a formação de um indivíduo”, contou.

A professora, que lecciona no nível primário, disse esperar melhorias neste quesito. “O custo de vida aumenta a cada dia. A maioria dos docentes, que vive apenas da profissão, não tem um meio de transporte próprio e precisa socorrer-se dos transportes públicos para chegar atempadamente as aulas. É um sacrifício. Mas, apesar de tudo, ainda vivemos preocupados com o nível e qualidade do aprendizado das crianças”.

No Dia do Professor, defendeu, era preciso que houvesse mais actividades de reconhecimento e reverência ao trabalho feito por estes. “Os docentes têm um papel de relevo na formação de quadros do futuro e mesmo em condições precárias era preciso, em dias como o de hoje, terem a devida atenção”.

Os ganhos da actualização de carreira

A actualização de carreira tem sido, nos últimos meses, das principais apostas do Executivo angolano, para reconhecer o trabalho de quem a anos se dedica à formação de quadros. Com verbas de projectos, como o Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), o Estado espera dar melhores condições aos docentes, de todo o país, para exercerem a actividade.

Entre os desafios actuais do ensino constam, entre outros, a cobertura escolar de todo o território nacional, pois o país ainda tem um número preocupante de crianças fora do sistema de ensino, índices que tendem a crescer a cada ano.

Homenagem abrangente

Hoje é celebrado o Dia Mundial do Professor, uma data instituída pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), para homenagear todos os que contribuem para o ensino e a educação da sociedade.

Em datas como esta é preciso reflectir, para a UNESCO, sobre os caminhos que trilham o ensino, a começar pela condição do professor, o acesso aos manuais e ainda a melhoria das estruturas das escolas, muitas delas a degradarem-se acentuadamente.

No centro de todo o processo educativo, com base na UNESCO, deve estar o professor, cuja função nobre, além de influenciar é, em muitos casos, determinante na mobilidade social e dinâmica que as sociedades adquirem.

Nesta data, acrescenta a organização, vale a pena abordar, reflectir e fazer, eventualmente, as melhores recomendações. Tal como no passado, o professor continua a ser encarado como um espelho na instituição de ensino e, às vezes mesmo, na comunidade, razão pela qual deve aprimorar a formação e cultivar-se continuamente.

Para a UNESCO, é preciso que a formação de professores continue e que, para a profissão, vão apenas os melhores aproveitados das aulas e ciclos de formação, devida e pedagogicamente agregados, para conseguirem dar resposta aos cânones da ciência do ensino.

“O abraço à profissão de professor não deve ter como fundamento único a busca de emprego, mas sobretudo, a dedicação e muito empenho na medida em que a tarefa de ensinar e educar muito se assemelha a um sacerdócio”, descreve a organização, alertando para a conservação de requisitos inerentes à profissão, como a assiduidade, pontualidade e participação regular das Zonas de Influência Pedagógica (ZIP).

Manuela Gomes e Carla Bumba

Revista Destimidos.