05/10/2022 09H45

Os altos custos de importação de adubos, sementes, agroquímicos e peças das principais máquinas que operam no campo são apontados pelo engenheiro agrónomo António da Silva como principais factores que contribuem para o fraco de-senvolvimento do sector agrário em Angola.

Numa altura em que o país gasta, anualmente, acima de doze mil milhões de kwanzas, para importar insumos, o engenheiro agrónomo acredita que caso a situação perdure, as acções ligadas à produção agrícolas continuarão a render pouco, pelo facto dos custos de importação não serem compensados com os ganhos da produção.

Numa entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, o técnico agrário defendeu a criação de políticas coordenadas que visem a criação de fábricas em Angola que garantam respostas imediatas para aquisição de insumos e peças das principais máquinas que operam no sector.

“Não é possível que até um simples parafuso temos de importar, deixando um equipamento inoperante durante dias ou até meses”, disse. Na opinião do especialista, o país deve criar soluções internas para a venda acessível de insecticidas, fungicidas, herbicidas, acaricidas e nematicidas.

Lamentou o facto de Angola possuir grandes potencialidades agrícolas, mas que o sector da indústria agroalimentar não responde os desígnios da procura do mercado nacional.

António da Silva, que é responsável de uma fazenda com mais de 1.500 hectares, frisou que neste momento tem armazenado cerca de 2.000 toneladas de soja e 1.800 de milho, por falta de compradores. Como alternativa os produtos são usados para o fabrico de ração animal.

Estimou que por ano a fábrica produz cerca de seis mil toneladas de ração para bovinos, suínos e galináceos. Admite que caso não haja maior investimento a nível da zona rural, o país vai continuar a registar êxodos populacionais no interior, facto que pode abarrotar as cidades e criar défice de mão de obra a nível das comunidades locais.

O engenheiro agrónomo acredita que é possível acabar com a fome em Angola, mas no seu entender deve-se fazer uma aposta séria no aproveitamento dos mantimentos produzidos localmente para melhor abastecimento do mercado nacional.

“Tenho conhecimento que, a nível da região Norte do país, existem outras empresas nacionais do ramo da agricultura que não conseguem escoar o milho para os principais mercados e, no entanto, o país tem falta de milho”, lamentou.

Apesar da falta de compradores fez saber que houve uma venda de 500 toneladas de milho a diversos compradores isolados que solicitaram o produto.

Disse que nesta safra espera-se a colheita de 800 toneladas de batata rena, 200 de cebola, 30 de feijão manteiga e preto.

Aposta na criação de bovinos e suínos

António da Silva frisou que a fazenda que gere possui 1.000 cabeças de gado bovino que normalmente custam entre 500 e 600 mil kwanzas, comprados na sua maioria por agentes de negócios provenientes de Luanda. “A nível do mercado local dificilmente temos compradores de bovinos”, salientou.

Deu a conhecer a existência de 40 búfalos, de origem asiática, cuja venda tem pouca saída. Acredita que a carne do animal é pouco procurada por questões culturais

Sublinhou que a produção de suínos ronda as 400 cabeças, criadas em 22 currais, tendo avançado que o número pode aumentar caso haja maior procura, atendendo a existência das 75 porcas reprodutoras existentes.

Fez saber que semanalmente são vendidos entre 40 e 50 suínos, comercializados em função do peso de cada leitão, comprados por agentes hoteleiros de Malanje, Uíge, Cuanza-Norte e Luanda.

A fazenda conta com 100 trabalhadores fixos e igual número de funcionários provisórios que normalmente labutam na produção de horticulturas e tubérculos e por altura das colheitas, por um período de seis meses.

Bernardo Gaspar trabalha na fábrica de ração há um ano e três meses, onde aprendeu a manusear máquinas e especiarias para a mistura do producto.

Diz que se sente bem com o trabalho e ganha dinheiro de forma honesta, com o qual sustenta a sua família.

Santana Pedro diz que sempre sonhou em ser actor de novelas, mas por falta de oportunidades de estudos específicos para a concretização dos seus intentos, labuta como responsável do curral de bois e dos porcos há cinco anos.

O jovem diz  estar consciente que o Governo não pode criar emprego para todos, por isso dedica-se ao que faz para preservar o emprego.

Marcelo Manuel / Lucala