04/10/2022 07H27

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) disputam a segunda volta das eleições presidenciais do Brasil a 30 deste mês, segundo os resultados da votação, divulgados este domingo.

Quando estavam escrutinados cerca de 96,42 por cento das urnas, após a votação de Domingo, o dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) liderava a contagem com 47,56 por cento dos votos válidos, contra 43,94 por cento de Bolsonaro, de acordo com dados do Supremo Tribunal Eleitoral.

Até sábado, véspera das eleições, o ex-Presidente do Brasil liderava todas as sondagens de voto divulgadas no país. Numa pesquisa Datafolha Lula da Silva estava com os mesmos 50 por cento dos votos válidos. Já Bolsonaro tinha 36 também em votos válidos.

Simone Tebet (MDB), que aparecia em quarto lugar nas sondagens, alcançou 4,37 por cento dos votos. Ciro Gomes (PDT) ficou atrás, com 3,08 por cento.

Mais de 156 milhões de brasileiros foram às urnas, um crescimento de 6,2 por cento em relação ao número de eleitores de 2018 ,segundo as autoridades.

Ao contrário das eleições anteriores, todas as assembleias de voto abriram às 8h00 de Brasília (12h00 em Angola), numa espécie de subordinação de todas as mesas ao fuso horário da capital brasileira.  Os eleitores puderam votar até às 17h00 de Brasília (21h00 em Angola), nas 577.125 urnas electrónicas espalhadas por 5.570 cidades do país.

Além de Lula da Silva e Bolsonaro, disputaram as presidenciais brasileiras os candidatos Ciro Gomes, Simone Tebet, Luís Felipe D’Ávila, Soraya Tronicke, Eymael, Padre Kelmon, Leonardo Pericles, Sofia Manzano e Vera Lúcia.

Tal como define a Constituição brasileira, caso nenhum dos candidatos presidenciais ultrapasse 50 por cento dos votos válidos, os dois mais votados voltam a enfrentar-se numa segunda volta, agendada para 30 deste mês. O sufrágio também visou definir os governadores dos 27 Estados do país, renovar os 513 membros da Câmara dos Deputados, 27 senadores e centenas de parlamentares que actuarão nas assembleias regionais do país.


 Autoridades registam 474 crimes eleitorais

O Brasil registou 474 crimes eleitorais, segundo o último boletim da Polícia Federal divulgado ontem pelo Ministério da Justiça do país, que, ainda assim, elogiou o clima de tranquilidade, durante a votação.

Segundo boletim do Tribunal Superior Eleitoral, 1.420 urnas electrónicas precisaram ser substituídas em todo o país. O número representa 0,27 por cento do total de urnas utilizadas.

Segundo relatório divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública por volta das 12h30 (horário local), deste total, 76 das ocorrências foram de crimes de ‘boca de urna’, 115 casos de compra de voto, 9 tentativas de violação de voto, 16 casos de transporte irregular e 65 crimes cometidos nos locais de votação.

O mesmo documento indicou que nove armas foram apreendidas, 184 pessoas foram presas assim como 1,9 milhões de reais (360 mil euros) em dinheiro que alegadamente seria usado para comprar votos.

Um desses últimos casos de compra de voto ocorreu no Norte do país, no Estado do Amapá, onde uma pessoa foi presa próximo a um centro de votação com grande quantidade de dinheiro.

Em meio a esse cenário tenso em razão da polarização entre apoiantes do actual Presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro, e os apoiantes de Luiz Inácio Lula da Silva do Partidos dos Trabalhadores (PT), o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, disse aos jornalistas após votação em São Paulo que o dia estava passando “com calma e segurança”.

Urna impugnada em Lisboa por voto duplo

O cônsul-geral do Brasil em Lisboa disse que duas urnas tiveram de ser substituídas por problemas técnicos e uma outra foi impugnada com a anulação dos 59 votos, porque um cidadão votou duas vezes.

Ao longo do dia “registou-se um único incidente nas votações, um eleitor votou duas vezes, aproveitando-se de um momento, e imediatamente nós fomos no-

tificados e entramos em contacto com o Tribunal Superior Eleitoral para as instruções de como proceder”, afirmou Wladimir Waller Filho, em declarações aos jornalistas no local de votação.

A urna foi então “lacrada, considerada corrompida e a votação teve seguimento com urna de lona”, acrescentou.  Os 59 votos que estavam dentro da urna tiveram de ser anulados.

Ao mesmo tempo a adida da Polícia Federal em Lisboa e o seu adjunto “acompanharam o caso também, e o eleitor que participou nesse acto foi levado a uma sala, foi feito um boletim de ocorrência, que já foi transmitido à Polícia Federal no Brasil”, adiantou ainda o diplomata brasileiro.

Wladimir Waller Filho sublinhou que “o que foi feito é caracterizado como crime eleitoral, no artigo 309º, e no Brasil a pena é de reclusão até três anos”, ou seja, o cidadão que praticou o acto pode ir preso.

Mas como se encontra no exterior, o cidadão brasileiro que praticou o acto foi “liberado, mas as notificações todas foram feitas”, explicou o cônsul-geral.

“É muito importante frisar que o incidente ocorreu na presença de fiscais que acompanharam todo o processo, desde verificar o que aconteceu, quer a conversa que eu tive com o juiz eleitoral em Brasília, e a instrução”, sublinhou.

Foi feita ainda uma “anotação em acta” daquela ocorrência, adiantou.

Na manhã de ontem, também em Lisboa, segundo o cônsul, “duas urnas apresentaram um problema técnico, problema esse que não pôde ser sanado”.

Pelo que ambas tiveram de ser substituídas por urnas de lona. “Isso gerou um pe-queno atraso, admitiu o cônsul-geral, explicando que só é possível a substituição de uma urna por uma de lona com a autorização do Supremo Tribunal Eleitoral.

Residentes em Angola votaram no Miramar 

Os brasileiros residentes em Angola exerceram o direito de voto no consulado do país localizado no bairro Miramar, em Luanda, o único local de votação, confirmou fonte diplomática.

De acordo com o funcionário da Embaixada do Brasil em Angola, que solicitou anonimato por razões de segurança, até às 11h00, pelo menos, 500 eleitores tinham exercido o direito

de votação para as eleições deste domingo.

Cerca de 20 mil brasileiros vivem e trabalham em Angola, segundo a fonte diplomática.


Lula: O operário feito político

Nascido em Garanhuns, a 230 km do Recife, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi ainda criança morar em São Paulo com a família. Fez um curso de torneiro mecânico no Senai, sem completar o ensino médio. No trabalho, encontrou a política por meio da sindicalização, num momento de enfraquecimento da ditadura militar e com o movimento Diretas Já.

Foi constituinte e elegeu-se Presidente em 2002, reeleito em 2006. Após passar a faixa para Dilma Rousseff (PT), viu os protestos de 2013, o impeachment de sua sucessora e a Operação Lava Jato, que o prendeu em 2018. Com o STF (Supremo Tribunal Federal) considerando seu julgamento parcial, concorre novamente ao Executivo.

Entre as principais propostas de Lula estão o regresso da política de aumento real do salário mínimo, o fortalecimento de empresas estatais e o combate à pobreza e fome, além de manter o Auxílio Brasil em 600 reais.

No campo económico, o líder do PT defende a mudança da política de preços da Petrobrás, que hoje é associada ao preço internacional do petróleo e gás, baseado em dólar. Também pretende revogar o tecto de gastos e revisar a reforma laboral.

Diante dos resultados da votação de ontem, um colunista do O Globo reportou na rede social Twitter que o candidato Ciro Gomes, quarto mais votado, considerou, agora, dar o seu apoio ao principal rosto do PT na segunda volta destas eleições, o que constitui uma boa notícia para Lula da Silva.


Bolsonaro: Capitão reformado do Exército

Jair Bolsonaro nasceu em Glicério, a cerca de 480 km de São Paulo, com ascendência italiana e alemã. Entrou no Exército e cursou a Academia das Agulhas Negras, visando a formação de oficiais. Chegou a capitão com carreira não exactamente brilhante, de acordo com superiores, e teve problemas disciplinares.

A ruptura ocorreu em 1986, quando escreveu um artigo a reclamar do salário e, no ano seguinte, foi acusado de planear atentados em quartéis para pressionar por melhores soldos. A trama nunca se confirmou, mas Bolsonaro caiu em desgraça e pediu para sair, após ser absolvido pela Justiça Militar dois anos depois.

Sua vida parlamentar começou em 1989, como vereador no Rio de Janeiro, e depois, deputado federal, ocupando o cargo por 28 anos. Em 2018, concorreu à Presidência da República, e depois de um ataque a facada que quase o matou, foi eleito. Bolsonaro propõe a potencialização dos mecanismos de uso de armas de fogo pela população, além de também manter o Auxílio Brasil em 600 reais em 2023 e proteger os cidadãos com valores tradicionais, como Deus, pátria, família, vida e liberdade.

Na economia, o actual mandatário promete ampliar as privatizações, a exemplo da desestatização da Electrobras. Também sugere esforços para corrigir a tabela do Imposto de Renda e pretende avançar com nova legislação para facilitar contratações e desburocratização de normas para abrir empresas.

Revista Destemidos.