21/09/2022 04H41

Angola é um dos poucos países africanos que implementam uma estratégia mista de exploração de combustíveis fósseis, sem tirar o foco nas energias renováveis, tornando-a num destino preferencial dos investidores.

“A transição energética em África precisa de ser ordenada; pois muitos países têm e vão explorar os combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que desenvolvem o foco nas energias renováveis. Países com elevado potencial de GNL, tais como Angola, Moçambique, Tanzânia e Nigéria, verão um interesse sustentado dos investidores, e será importante analisar as conversas em torno do fim da queima de gás”, afirmou Patrícia Rodrigues

Para a analista sénior da Control Risks, os intervenientes privados terão de estar atentos aos riscos políticos, dada a competição por projectos em mercados saturados, bem como a questões contratuais com os governos, o que pode levar a atrasos.

“Os investidores deverão estar conscientes das preocupações ambientais, sociais e de governação (ESG) associadas à indústria, dado o potencial de “greenwashing” e a natureza extractiva contínua de muitos projectos”, disse.

Esta perspectiva consta do relatório divulgado, ontem, em Londres, pela empresa de consultoria, especializada em risco “Control Risks”, conjuntamente com a “Oxford Economics Africa”, que aborda nesta sétima edição sobre o Índice de Risco-Recompensa da África: “Oportunidade através da incerteza”.

Guia autorizado

O Índice de Risco-Recompensa da África é um guia autorizado para líderes políticos, líderes empresariais e investidores. O relatório detalha a evolução do panorama do investimento nos principais mercados africanos e apresenta uma perspectiva fundamentada e a longo prazo das principais tendências que moldam o investimento nestas economias. O PIB de África cresceu cerca de 6,9 por cento em 2021, revelando uma dinâmica positiva no futuro. No entanto, o continente continuará a enfrentar a incerteza. As consequências da pandemia e da guerra entre a Rússia e a Ucrânia deverão ter impacto nas perspectivas económicas do continente africano durante muitos anos.

Em 2021, cerca de 22 milhões de empregos foram perdidos devido à pandemia, com 30 milhões de pessoas a serem empurradas para a pobreza extrema. Estima-se que este número irá aumentar em mais de 1,8 milhões de pessoas durante 2022.

O aumento dos custos, a ruptura da cadeia de fornecimento e as alterações climáticas exacerbaram a crise alimentar do continente e, em toda a África, o sentimento antigovernamental já é elevado e crescente, uma vez que os governos são vistos como incapazes de enfrentar os desafios socioeconómicos. As pontuações de risco-recompensa deste ano pintam um quadro de um continente num ponto de inflexão, onde as oportunidades abundam numa altura de grande incerteza.

O relatório examina três grandes temas.

1. Moldar o papel da África na transição energética global

Este artigo explora como a urgente transição global para longe dos combustíveis fósseis, combinada com a perturbação dos mercados energéticos europeus, levou a um foco renovado na energia da África – como fonte de energia para outras partes do mundo e como um continente com potencial para “saltar etapas” no desenvolvimento através da adopção generalizada de energia limpa.

Existem oportunidades em todos os subsectores energéticos (energias renováveis, petróleo e gás, hidrogénio) e ao longo de toda a cadeia de valor (extracção, desenvolvimento, geração, transmissão, distribuição, exportação), com os governos a acolherem largamente os investidores.

2. Segurança alimentar em África é ainda um desafio

A ruptura das cadeias de fornecimento globais provocada primeiro pela pandemia da Covid-19 e, mais recentemente, pelo conflito na Ucrânia, realçaram a dependência externa da África para a maioria das suas mercadorias e as graves lacunas nas cadeias de fornecimento internas do continente, tais como a alimentação. Estes desafios são predominantes, apesar dos países africanos se terem comprometido em 2019 a acelerar a integração regional ao abrigo do Acordo de Comércio Livre Continental Africano (AfCFTA).

A maior parte das atividades relacionadas com a agricultura na África é de subsistência, e onde não o é, obter alimentos da exploração agrícola para o consumidor final é dispendioso. Um grande déficit de infraestruturas de transportes e energia continua a ser um obstáculo-chave para enfrentar estes desafios.

No entanto, o ambiente político do continente é fortemente protecionista, o que impedirá melhorias a curto prazo: muitos dos protocolos comerciais do AfCFTA continuam a ser teóricos. Mesmo dentro de blocos individuais, tais como a Comunidade da África Oriental e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, existe concorrência em vez de cooperação para servir principalmente mercados não africanos.

3. Problemas financeiros

O sentimento antigovernamental é elevado e está aumentando muito nas populações dos países da África, com governos acusados de não conseguirem fazer face ao aumento do custo de vida. Embora isto tenha provocado agitação em muitas capitais africanas, é pouco provável que precipite mudanças políticas significativas, uma vez que as elites ignoraram as preocupações, cooptaram movimentos populares para tomar o poder ou para reforçar o seu próprio domínio sobre a autoridade, ou simplesmente não têm capacidade financeira para fazer algo tangível (com sistemas de bem-estar fracos ou inexistentes).

Os detentores de cargos e as elites têm feito fracas promessas de reformas, mas é pouco provável que as cumpram, apesar da crescente raiva da população. Exemplos incluem Nigéria, Gana, Uganda, África do Sul, sendo o fio condutor comum que a oposição nestes países é ruidosa e disruptiva, mas é na sua maioria ineficaz para engendrar mudanças.

JULHO
Remessas de portugueses sobem 37,5 %

As remessas dos portugueses em Angola subiram 37,5 por cento em Julho, para 41,3 milhões de euros, influenciando a subida de 36,9 por cento registada nas remessas enviadas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

De acordo com os dados do Banco de Portugal (BdP), os portugueses a trabalhar em Angola enviaram 41,3 milhões de euros, o que representa uma subida de 37,5 por cento face aos 30,03 milhões de euros enviados em Julho de 2021, que por sua vez compara com os 34,5 milhões enviados em Julho de 2020.

As verbas enviadas pelos portugueses em Angola representam, como habitualmente, a quase totalidade das remessas enviadas pelos portugueses nos PALOP.

Assim, os emigrantes nacionais nestes países enviaram 42,12 milhões de euros em Julho para Portugal, o que representa uma significativa subida de 36,9 por cento face aos 30,7 milhões de euros enviados em Julho do ano passado.

Em sentido inverso, os africanos lusófonos a trabalhar em Portugal enviaram 3,6 milhões de euros, o que representa uma subida de 19,9 por cento face aos 3,02 milhões enviados em Julho do ano passado.

No total, as remessas dos emigrantes portugueses subiram 2,9 por cento em Julho, para 377,4 milhões de euros, enquanto as verbas enviadas pelos estrangeiros em Portugal subiram 8,9 por cento, para 47,2 milhões de euros, face ao período homólogo.

Os portugueses a trabalhar no estrangeiro, referem ainda os dados do BdP, enviaram remessas no valor de 377,4 milhões de euros em Julho, o que representa uma subida de 2,9 por cento face aos 366,8 milhões enviados em Julho do ano passado.

Em sentido inverso, os estrangeiros a trabalhar em Portugal enviaram para os seus países de origem 47,2 milhões de euros, mais 8,9 por cento do que os 43,3 milhões de euros enviados em Julho do ano passado.

Por: Isaque Lourenço

Revista Destemidos.