A especialista em geopolítica do Indo-Pacífico Cleo Paskal considera que os acordos que a China tentou fechar com vários Estados do Indo-Pacífico nas últimas duas semanas são uma forma de colocar a sua força no terreno – nomeadamente se houver um problema internacional que envolva Taiwan.

Investigadora canadiana da Foundation for Defense of Democracies, think tank com sede em Washington, Cleo Paskal liderou o projeto ‘Geostrategic Perspectives for the Indo-Pacific 2019-2024’ no instituto independente Chatham House em Londres. Em entrevista ao jornal francês “Le Monde”, e falando sobre o périplo que o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, realizou entre 26 de maio e 4 de junho em oito Estados insulares do Pacífico, Paskal não tem dúvidas que Pequim pretende aumentar o impacto da sua força na região e engajar os Estados à sua política internacional.

Para a investigadora, Taiwan é a porta de acesso a que a China tem de recorrer para ter caminho livre não apenas para os países da região, mas também como passagem para a África, onde Pequim tem desenvolvido contactos privilegiados nas últimas duas décadas. A China está bloqueada por pequenas cordilheiras de ilhas “que se estendem do Japão às Filipinas e a Taiwan. O espaço pode parecer vasto, mas não é. Para chegar ao Indo-Pacífico, mas também ao Ártico, a China precisa de quebrar essa cadeia e, para isso, tem de tomar Taiwan”, refere a investigadora.

Ora, disse, esta estratégia esbarra claramente com as iniciativas recentes dos Estados Unidos não região, o que está a aumentar a pressão regional. O objetivo imediato, esclarece Paskal é, portanto, o de “expulsar os Estados Unidos do Pacífico”.

Wang Yi visitou Timor-Leste, Papua Nova Guiné, Ilhas Salomão, Kiribati, Vanuatu, Fiji, Tonga e Samoa.

A reunião em Timor-Leste – entre Wang Yi e Xanana Gusmão – serviu, segundo a imprensa chinesa, para o antigo guerrilheiro afirmar que o compromisso ativo da China na cooperação com os países insulares do pacífico (PICs) é uma resposta comum a desafios comuns, que passam pela segurança e pela cooperação no desenvolvimento económico.

Por seu turno, Wang Yi apreciou as ​​contribuições de Xanana Gusmão para o desenvolvimento das relações bilaterais, salientando que a China tem uma tradição de tratar os países de pequena e média dimensão como iguais. “É nossa obrigação defender os interesses dos países em desenvolvimento, e é nossa responsabilidade internacional ajudá-los a acelerar o desenvolvimento”, disse o ministro, segundo avança o site do ministério chinês.

“A China não procura esferas de influência nem está interessada em qualquer rivalidade geopolítica. Alguns países presumem o comportamento de outros com base na sua própria experiência”, referiu Wang Yi, sem dúvida referindo-se aos Estados Unidos – cujo presidente, Joe Biden, visitou a Coreia do Sul e o Japão (onde se encontrou também com o líder da Índia) na semana anterior.

Revista Destemidos.