20 anos de carreira, dezenas (o próprio não conseguiu dar um número concreto) de trabalhos nas ruas, inúmeros concertos pelos mais conceituados palcos de vários países e estatuto de “lenda viva” no panorama do rap português. O que falta fazer ainda? A resposta é simples: fazer tudo de novo, mas de forma diferente, e é aí que começa o desafio.

Prodígio, rapper membro da Força Suprema

Osvaldo Moniz, mais conhecido como Prodígio, tem-se cimentado cada vez mais como um dos rappers de topo na lusofonia e, com um novo ano, temos um dos mais ousados e ambiciosos projectos da sua carreira: lançar oito álbuns até 2022 ser ano velho, todos sob um conceito muito único e singular que pretende homenagear a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

O Rimas e Batidas esteve à conversa com o artista, que nos revelou mais sobre a primeira de oito partes deste projecto, que se foca em Portugal. Na próxima segunda-feira há novidades — e no último dia de Março a Força Suprema toma conta do Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Este Prodigia-te é apenas um dos oito álbuns que reservas para 2022, sob um conceito muito interessante que pretende celebrar união de povos e culturas de sete países de expressão Portuguesa — Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique e São Tomé e Príncipe. É um projecto em grande, algo bem peculiar e diferente do que já fizeste, que começou a 7 de Fevereiro e acaba a 28 de Dezembro, dia do teu aniversário. Fala-me um pouco sobre tudo isto.

O objectivo é maximizar o uso daquelas que são as nossas ferramentas. O conceito do Prodigia-te é meu para as pessoas, para lhes relembrar que isto aqui, a vida, não é garantida. É ir atrás… sejas futebolista, cantor, canalizador, prodigia-te – sê o melhor naquilo que fazes. Eu tenho por hábito fazer isso, dar o meu melhor, achei que tinha de dar o exemplo com este projecto, fazendo uma loucura mesmo. O que muitos artistas não fizeram numa carreira vou eu fazer num ano, com estes oito álbuns! Gostava de frisar aqui que não é uma aglomeração de músicas, é mesmo música com qualidade e muito esforço, é fruta espremida, e daqui a uns meses vão entender quantas realidades eu consegui ir buscar e em quantas fotografias eu tive de me colocar para este projecto fazer sentido. Agora ainda não faz muito sentido o que eu digo, e também gostava de te convidar ou desafiar a fazermos outra entrevista mais tarde, porque eu não quero revelar tudo sobre este conceito, com o passar dos meses e com o lançamento dos outros álbuns, as pessoas vão começar a compreender o conceito. A partir do terceiro álbum as pessoas vão perceber que este conceito é bem mais profundo do que parece, não são apenas colectâneas de músicas. São projectos com direção, pensados ao detalhe, dediquei o fim de 2021 a isto e vou dedicar o ano inteiro de 2022 a isto também. São músicas com sentido, são perdas, vitórias, pessoas que perdi, pessoas que ganhei, dinheiro que perdi, negócios que falharam, amigos que se foram… é a vida de verdade, na casa dos trinta, é um trintão a falar. Venho motivar as pessoas a entenderem-se, que elas percebam quem realmente são, e é por isso que dou o mote, com o Prodigia-te.

No press release deste trabalho há uma frase que me captou a atenção e passo a citar: “O que fazer quando sentimos que já fizemos tudo que achávamos que podíamos ter feito? A resposta é, fazemos tudo de novo e este tem sido o mindset que me tem acompanhado ao longo da minha carreira.”. Enquanto Prodígio e Força Suprema, e falando um pouco mais na forma de vocês encararem a indústria, tiveram uma fórmula que foram replicando durante alguns anos e fruto disso ganharam muita estrada, tocando em imensos países dos PALOP. Agora, em 2022, agarras em toda essa experiência e vivências para fazer música nova, não é?

É exactamente isso, na mosca, irmão [risos]. Eu já consegui ir a uma praia de Cabo Verde e não me deslumbrar com a água transparente dela, mas entender que há pessoas com necessidades e que uma palavra certa no momento certo pode elevar e dar uma perspectiva diferente de vida a um puto aqui da Trafaria, da Serra das Minas ou de Chelas. Nem falo de os elevar a ambicionarem ter bens materiais, coisas grandiosas, basta por exemplo ter coisas mais simples, como abrir uma oficina na Amadora, um ginásio em Chelas, entendes? Com este projecto quero voltar onde fui tão bem recebido e contribuir com alguma coisa, que neste caso é a minha arte. E vou fazê-lo de uma forma muito esforçada e profissional, quero trazer música ao mais alto nível, com a maior qualidade, há muita preocupação nesse aspecto sónico, vou trabalhar em todos os álbuns com um engenheiro de som que eu considero o melhor da minha geração, o Shano da Mastermind, que é angolano. Não quis lançar oito projectos com música de fraca qualidade, pegar em malta mais inexperiente e pagar pouco, ou até aproveitar malta que já se ofereceu para me misturar música, não, eu quis inspirar, trazer música de outro nível. Enquanto Dope Muzik reunimos esforços para fazer isto acontecer para um só artista, são oito projectos para o Prodígio e não podemos esquecer dos outros elementos. 2022 vai ser um ano com bastante actividade, vai surgir muita música nova com selo Dope Muzik.

Estes dois últimos anos foram um desastre para muita gente, muito difíceis e aconteceram algumas coisas negativas pessoalmente, como o falecimento do meu pai e assim. Apesar disso, não fiquei desmotivado, mas apenas não queria colocar mais música na rua só por pôr, já tenho uma discografia muito grande, e neste momento não seria um projecto de FS que me daria gana para estar em estúdio, tinha que ser algo muito desafiante, uma loucura, e foi aí que surgiu este conceito.

Sinto um Prodígio cada vez mais maduro a nível musical, o álbum com o Paulo Flores, o Esperança e Maldição, foi das coisas mais interessantes que ja ouvi tuas, marcou-me bastante. 

Eu gosto de ter controlo da minha própria narrativa e depois de fazer isso tantos anos queria garantir que não era um artista substituível. Sabes bem o que é ser um artista hot, aquela cena do momento, és esse hot boy durante alguns anos, mas eventualmente há-de surgir um novo Cristiano Ronaldo, até anda aí o Mbappé agora… Eu nunca quis calçar os sapatos do número um, entendes? Sempre tomei decisões que eu sabia que a curto prazo ia parecer que me iam prejudicar, por exemplo: eu não acompanhei os tempos a nível de sonoridade, sempre me mantive fiel a um certo som que fazia, e isso do ponto de vista mais de business e comercial num curto espaço de tempo é prejudicial, entendes? O mainstream manda e o que esse público ouve é o que está agora na moda: se estão a ouvir drill então é agora essa moda, se for kizomba, é kizomba agora — e então, eu sabia que estrategicamente, algumas decisões no imediato podiam parecer erradas, mas sabia que a longo prazo o que fica é o que fica, ouro é raro porque é caro, entendes? Prodígio há-de sempre vir num formato especifico, se amanhã o que estiver a tocar for funk, punk, etc., vou deixar essa malta tocar isso, eu sou um artista de rap e sou muito fiel a esta arte pela qual me apaixonei tão cedo e tão novo. 

Prodígio em estúdio

Tens demonstrado uma grande abertura a trabalhar com novos artistas e neste projecto a tónica manteve-se. Colaboraste com Olavo Bilac, Daus, Holly, Stereossauro, Carla Moreno, entre alguns mais. Estás a expandir os teus limites/horizontes músicas?

Exactamente, o meu objectivo é usar a plataforma que fui criando e que tem algum alcance para chegar ao público e fazer duas coisas: cantar com quem eu desejo e tenho aqui na minha bucket list, como o Olavo Bilac; e por segundo, trazer sangue novo, malta nova que posso ajudar dando-lhes alguma exposição pelo seu talento, mostrar que são artistas de qualidade. Portanto, tem sido o melhor dos dois mundos, trabalhar com malta mais conceituada mas também dar espaço a quem esteja a surgir e eu sinta que realmente tem potencial. Como disse, o cota Olavo era um dos artistas que gostava mesmo de trabalhar, foi da geração antes da minha e ele marcou muito a minha adolescência… a minha irmã ligava a TV e ele era a banda sonora das novelas, é um artista com grande experiência. Hoje ter a oportunidade de ser notado por ele e trabalharmos juntos é um grande orgulho, sinto-me bastante lisonjeado por ter tido a confiança dele já que tem poucas participações com outra malta, especialmente com rappers, acho que sou o primeiro com quem ele trabalhou. Nas produções temos o Daus, que é meu amigo há muitos anos, mas está agora a começar a ganhar o seu espaço na cultura, fruto do seu talento e qualidade, ele é as good as it gets. Depois temos malta bem credenciada, como o Madkutz, o Holly e o Stereossauro que a malta já sabe o que pode esperar com eles, são senhores que já andam cá há muitos anos.

E o processo criativo com o Olavo Bilac, como surgiu essa ligação?

Veio da estrada, conhecemo-nos entre concertos. Acho que há três anos em Moçambique estivemos juntos num concerto de beneficência, cruzámo-nos por lá e a vibe sempre foi muito boa, ele é uma pessoa bastante carinhosa. Depois disso estivemos uma vez em estúdio com o Matias Damásio e o Maninho e comecei a ganhar maior noção de como ele trabalhava, sempre numa vibe super fixe. Mais à frente, quando ouvi o beat do “Cabelos Brancos” que o Daus produziu, veio-me automaticamente à cabeça o nome dele para cantar o refrão, foi logo o primeiro! Mostrei-lhe o instrumental, disse-lhe logo que achava que encaixava no refrão, e ele também gostou e perguntou-me: “Tens alguma pressa para fazer isto?” e eu expliquei-lhe que sim, fruto do conceito que vamos desenvolver com o Prodigia-te. Ele concordou e em Janeiro reunimos em estúdio para fazer acontecer! Nós conectámos super bem, estamos na mesma “frequência”, e em estúdio as coisas correram bastante bem e rápido – 10/15 minutos e o refrão estava feito, ele é como eu, somos muito rápidos nessa parte do processo [risos]. Depois combinámos a gravação do videoclipe, fomos até um lar de idosos em Almeirim, foi uma experiência bué interessante, achei interessante ver o dia a dia dos mais velhos. Pesou-me um bocado foi pensar que uma mãe é capaz de cuidar de imensos filhos e depois na situação inversa isso por vezes não acontece, fez-me um pouco de impressão pensar nisso… mas correu tudo mesmo smoothly, foi algo mesmo fluído.



Ficou um produto final muito interessante, é para mim das tuas músicas mais disruptivas, num registo bem mais calmo. 

Sim, é uma das músicas mais serenas que já fiz, eu sou um liricista e tenho sempre aquela responsabilidade de ser profundo e nesta música tentei transmitir a mensagem que pretendia de forma muito simples e serena e o resultado ficou muito nice, foi novo e diferente para mim, foi algo curto e objectivo.

Assim como surgiu a ligação com o Olavo Bilac, há alguma história interessante/engraçada que tenha acontecido no decorrer da criação do projeto?

Há uma coisa não muito positiva sobre o rapaz que tocou as guitarras do “Cabelos Brancos”, o Ângelo. Ele estava doente, com um cancro, e já debilitado abençoou-me com a sua arte antes de falecer, que a sua alma descanse em paz. A música seguinte, a “Tia Lara”, foi dedicada a uma pessoa que me era muito querida e faleceu de cancro também. O projecto acaba por ter esse lado emocional, são vidas e coisas de verdade, não é mais um projecto do Prodígio com músicas como a “Estragar a Party” ou o “Swag All Ova”. Como é óbvio ainda gosto muito desses temas, mas com o passar da idade acho que a arte deve ser reflexo do estado do mundo, do meu mundo, e também da pessoa em que me estou a tornar, pelo menos no meu caso. Então, o álbum acaba por reflectir isso, tem esse cinzento, essa parte de termos perdido o Ângelo e a Tia Lara. Curiosamente, a Tia Lara ainda estava viva quando eu fiz essa música para ela, é por isso que eu canto: “Quando fores, leva a tua paz, e, se fores, descansa em paz”. Isso tudo aconteceu no processo de fazer o CD e pude-lhe dar um último sorriso, e essa é uma das razões pela qual o disco termina com a música “Morfina”. É o cansaço, é à procura de algum tipo de bengala para nos mantermos de pé. Obviamente a palavra “Morfina” é uma figura de estilo aí, a maior “Morfina” é provavelmente o amor, foi por aí.

E esse “Morfina” também toca em questões socio-políticos. Não tens problemas em desempenhar esse papel de activista na tua música, não é? 

Eu não dizer nada não traz consequências para mim, mas há consequências para toda a gente. Como artista, eu compreendo quem anda ao lado disso, respeito de verdade a estrada de cada um, mas não tomar esse papel pode ser bom para mim, supostamente, mas mau para muita gente. Sinto que tenho de dizer o que tem de ser dito, por mais agridoce ou difícil de engolir certas mensagens, até porque não dizer nada também tem consequências, e nesse caso para todos. “Nós” é obviamente maior e mais importante do que “Eu”. Temos alguma responsabilidade para quem nós trazemos ao mundo, os nossos filhos, passar bons valores, empatia, noção e respeito enquanto humano.

Ainda falando em papéis, também consideras que tens sido um género de visionário musicalmente falando? Tens várias colaborações nos últimos anos com malta mais nova e a surgir.

Tu olhando de fora para dentro tens uma perspectiva diferente da minha, porque eu sinto que sou o que tenho de ser, entendes? Sempre tentei abrir e até criar caminhos, porque por vezes vamos encontrando algumas vias abertas como eu encontrei com o NGA e tantos outros foram encontrando com malta como o Boss AC, Gabriel e Pensador, etc. Eu não quis passar por aqui sem deixar o meu contributo, sem diluir o elitismo de alguma forma, ou seja, para quem vem debaixo como eu, do bairro, poderem ter como exemplo o Prodígio, mostrando-lhes que realmente é possível subir na vida. A tua realidade crias tu, o teu futuro já aconteceu porque na verdade o futuro é feito das nossas escolhas do presente. Quero desempenhar o papel daquele tio que parece muito chato, que dá muito raspanete, mas no fundo é para o bem de quem está a surgir, para que possam ser cada vez melhores, mais profissionais e até produzirem resultados melhores que os meus, porque há malta por aí com muito talento e que merecem ter uma carreira longínqua, e não ser só viver o presente, sacrificando o amanhã.

Falando nessa longevidade a nível musical, queria perceber como é que com 20 anos de carreira se consegue manter aquela “chama” da criatividade acesa, como alimentas isso?

Tenho-me inspirado no meu início, na raiz da carreira. Imagina, quando conheces uma mulher, apaixonas-te primeiro pelo mais superficial, pelo corpo, pela cara, mas uma relação só dura quando realmente os dois se começam a perceber ao ponto de tu conseguires apreciar coisas que mais ninguém consegue, sabes? Apaixonei-me por hip hop muito cedo, era um escape para mim e ao longo dos anos fui tentando percebê-lo de uma forma que os outros manos não percebiam, não tomar por garantido o carinho das pessoas por mim, então a minha inspiração musical é lembrar o porquê dessas pessoas terem carinho por mim, porque eu antes de ser o maior rapper para algumas pessoas era um perfeito desconhecido, as pessoas não nutriam qualquer sentimento pelo Prodígio. Ou seja, lembrar disso mantém os meus pés no chão, lembrar que não nasci aqui, no Spotify, existe um antes de tudo isso que me inspira. E, claro, as relações do dia a dia e as vivências também inspiram, mas é essencialmente o voltar atrás, lembrar-me das minhas raízes.

Fonte: Rimas e Batidas

Revista Destemidos